“Comunicação hostil tem sufocado o debate público”, aponta presidente da CNBB no artigo “Desafios do Presente!”

O arcebispo de Porto Alegre (RS), presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, cardeal Jaime Spengler publicou no site da Conferência um artigo intitulado “Desafios do Presente”. No texto, o cardeal aponta que a “aceleração da comunicação e o ambiente hostil, provocado por alguns atores, das redes sociais têm sufocado o debate público”. Neste ambiente, defende o cardeal, “não se trocam argumentos; em seu lugar o que se assiste são insultos e conteúdos distorcidos”.

Isto também tem um impacto para as instituições e a vida cívica aponta o presidente da CNBB: “O desrespeito pelo divergente vai abrindo espaço para a desconfiança institucional e a violência. Esse processo impacta diretamente a sociedade e compromete a formação democrática da opinião pública, ao dificultar a construção de um conhecimento coletivo fundamentado no diálogo, na pluralidade de perspectivas e no acesso à informação contextualizada”.

Como saída, dom Jaime aponta que “a comunidade humana é chamada a promover a dignidade da pessoa, reconhecendo o valor de cada indivíduo e trabalhando para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e solidária”.  Dom Jaime defende que a “construção de uma sociedade democrática pressupõe reconhecer o outro não como adversário a ser combatido, mas como alguém que compartilha conosco a mesma condição humana e cuja dignidade deve ser respeitada”.

Em meio às diferenças culturais, sociais e ideológicas, aponta o presidente da CNBB, “torna-se fundamental fortalecer o diálogo, o respeito mútuo e a convivência democrática, favorecendo relações sociais que valorizem a diversidade, promovam o bem comum e contribuam para uma cultura de paz”. Veja, abaixo, o artigo na íntegra.

Desafios do Presente!

A aceleração da comunicação e o ambiente hostil, provocado por alguns atores, das redes sociais têm sufocado o debate público. Neste ambiente, não se trocam argumentos; em seu lugar o que se assiste são insultos e conteúdos distorcidos. O desrespeito pelo divergente vai abrindo espaço para a desconfiança institucional e a violência. Esse processo impacta diretamente a sociedade e compromete a formação democrática da opinião pública, ao dificultar a construção de um conhecimento coletivo fundamentado no diálogo, na pluralidade de perspectivas e no acesso à informação contextualizada.

O que é a violência? A violência é uma linguagem privada de relações, um grito privado de escuta que instaura um clima de radicalismo, um fechamento de coração e uma mistura de fatalismo, ou seja, a ideia de que o mundo está mal, a sociedade não presta e é preciso desconfiar de tudo e de todos, em uma lógica viceral de amigo-inimigo, eles-nós.

J. F. Kennedy dizia que, quando faltam as reformas pacíficas, acaba-se recorrendo às revoluções violentas. É o que se assiste nas redes sociais. A circulação de conteúdos enganosos e o modo como podem ser produzidos e rapidamente compartilhados, coopera para promover a desconfiança nas instituições, o aprofundamento de conflitos e a construção de consensos, alimentando suspeitas por meio, não raramente, de acusações infundadas e não comprovadas. Quando a propagação de informações distorcidas e interpretações parciais ou preconceituosas sobre pessoas ou instituições é propositadamente disseminada, os processos de decisão comunitária entram em crise.

É preocupante a constatação da dificuldade em conviver com a diferença, cooperando desse modo para a emergência fanatismos e fundamentalismos incapazes de cooperar na construção de consensos em vista do bem comum. Governos recebem mandatos; a cidadania conserva a responsabilidade de participar, fiscalizar e reivindicar. Mas essa responsabilidade precisa de condições concretas: informação confiável, espaços acessíveis de deliberação, segurança para defensores de direitos e canais públicos que efetivamente acolham as demandas.

É neste contexto que a comunidade humana é chamada a promover a dignidade da pessoa, reconhecendo o valor de cada indivíduo e trabalhando para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e solidária. Em meio às diferenças culturais, sociais e ideológicas, torna-se fundamental fortalecer o diálogo, o respeito mútuo e a convivência democrática, favorecendo relações sociais que valorizem a diversidade, promovam o bem comum e contribuam para uma cultura de paz. Essa perspectiva encontra ressonância na mensagem do Papa Francisco para o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 2019, intitulada «Somos membros uns dos outros», inspirada na Carta aos Efésios (4,25). Ao refletir sobre a passagem das comunidades das redes sociais para a comunidade humana, Francisco destaca a importância de reconhecer os vínculos que nos unem e a responsabilidade que temos uns pelos outros.

A partir dessa compreensão, a construção de uma sociedade democrática pressupõe reconhecer o outro não como adversário a ser combatido, mas como alguém que compartilha conosco a mesma condição humana e cuja dignidade deve ser respeitada. Essa perspectiva torna-se especialmente relevante em um ambiente comunicacional marcado pela polarização, no qual a circulação de informações descontextualizadas e a disseminação de discursos que acentuam as divergências podem comprometer o diálogo público. Nesse sentido, é fundamental fortalecer uma comunicação comprometida com a verdade, a responsabilidade e o respeito à pluralidade, capaz de favorecer o encontro entre diferentes perspectivas e contribuir para a formação democrática da opinião pública e para a construção do bem comum.

Dom Jaime Cardeal Spengler
Arcebispo de Porto Alegre (RS)
Presidente da CNBB

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil(CNBB). Disponível em: https://www.cnbb.org.br/presidente-da-cnbb-publica-artigo-desafio-do-presente/. Acesso em: 20 de outubro de 2026

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